quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O Brasil do interior nas Tranças de Maria

O filme brasileiro “As tranças de Maria”, baseado no poema da escritora Cora Coralina, conta a história de uma moça fadada à luta contra a rejeição e o autoritarismo do pai no interior de Goiás. A jovem de pele morena e cabelos negros na altura do tornozelo despertam a atenção de Izé da Badia, conhecido como o rei dos vaqueiros entre os moradores da região. A partir daí, as cenas apresentam um cenário de natureza, simplicidade, e os muitos pensamentos de Maria sobre questões comuns para a época (1950) e o contexto no qual vivia.

Logo de início, o espectador se depara com os devaneios de Izé à procura de sua amada. A situação é narrada e não permite grandes falas ao vaqueiro, que se encontra sujo e maltrapilho. A deixa do diretor vai ser esclarecida ao final do longa-metragem e confunde um pouco aqueles menos pacientes, os que desejam saber logo de cara a história ou a proposta do filme. A personagem principal, Maria, é a próxima a ser apresentada e surge abastecendo um barril de água no rio próximo de sua casa.

Para o bom entendedor, a cena mostra a dificuldade do povo local no acesso à água e o espaço também se assemelha a uma espécie de “oásis” diante da paisagem seca e alaranjada de pó, típica do centro-oeste brasileiro.
É preciso destacar que as vozes dos personagens demoram a se manifestar, e deixa no ar a intenção do diretor em nos transportar aos costumes caipiras, à ordenha das vacas, às casinhas de pau-a-pique e o silêncio inerente à vida no mato. A constância da monotonia pode irritar os imediatistas, além de testar a paciência dos “menos-pacientes”.
As falas são tão escassas quanto os pensamentos, que também ganham voz. E é num dos pensamentos altos de Maria que conhecemos seus sonhos, um deles mais significativo para se compreender a personagem: “Sonho com uma vida que não conheço, mas não sei como. Minha alma deseja algo que eu ainda não sei”. Ancorada no balanço de uma árvore, a moça de tranças gigantescas revela o interior de uma vida incomodada com a realidade que a cerca.

Maria e Izé da Badia se encontram diversas vezes durante o filme e o moço, de boa aparência, não disfarça o interesse que tem em se casar. Era importante para as mulheres do interior o casamento bem sucedido, ficar para titia não estava entre as preferências femininas da época.

Com Maria, tudo foi diferente. Os mandos e desmandos do pai dentro de casa repugnaram a possibilidade conjugal na visão da filha. Ela não imaginava para si um destino adornado de filhos, fogão e eterna submissão. Não. “Pai pensa que eu não tenho querer”, dizia consigo mesma, ainda que fosse um desafio afrontar a obediência ao pai. A união amorosa é acertada pelos pais para alegria de Izé e preocupação de Maria, que jamais se entrega ao marido como mandam as leis do matrimônio.

A justificativa para tal atitude vem revelada por meio de outro pensamento: “Minha alma não é desse mundo”. Nesse ponto, a situação também retrata o fato de que as filhas mulheres não tinham chance de escolher o próprio cônjuge, geralmente aceito pelo pai da noiva que considerava a possibilidade do contrato favorecer também a família.
Atormentada, a protagonista da história foge o quanto pode das mãos do próprio marido. Ela descobre que no rio vive uma cobra grande capaz de engolir qualquer animal de porte médio. É a chance que procurava. Levada pelos conflitos do porquê de sua existência, Maria decide se entregar às águas do leito, deixando para trás uma verdadeira angústia sobre a família, que passa à procurá-la incansavelmente por todos os lugares daquele pedaço de chão.

Izé, coitado, recebe da situação o transtorno mental e fica louco. Sai a buscar sua amada como um andarilho sem rumo até receber das mãos de uma curandeira as tranças de Maria, retiradas da barriga daquela cobra, agora morta pelos homens da vila. O filme termina com o narrador descrevendo a cena em que Izé da Badia faz das tranças de seu grande amor os laços que iriam conduzir seu cavalo para o resto de sua vida.
Como todo filme brasileiro mais antigo, não se pode esperar grandes efeitos potencializados pela alta tecnologia. Tudo vai passando de maneira simples, exatamente como era a vida no campo. O longa tem momentos bastante pausados e foge da lógica hollywoodiana. É um filme que apresenta uma história de amor (não foge à estratégia dos romances), mas não só isso. O Brasil de então, por volta de 1950, também é conhecido pela face cinematográfica do poema.

O clima do cerrado, os modos de levar a vida em sociedade, os questionamentos acerca do casamento, do autoritarismo, são exibidos para conhecimento do espectador, fornecendo a ele a chance de refletir sobre determinada época e, quem sabe, comparar com o momento que se vive. O filme mostra que não importa o lugar: todos as pessoas têm um destino a trilhar. O de Maria, obscuro de início, ao final foi um só: afagar as mãos daquele que realmente amou sua existência, Izé da Badia.
“Duas tranças primazia.Macias de luvas-mão,
Presas ás cambas de seus freio niquelado,
Em prata fina banhado.E o Izé tinha nas mãos,
Todos os dias, o sedenho da sua noiva Maria.”

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Gotas de Eliane Brum

"Na internet, as pessoas gostam de ler textos longos.
Desde que eles respeitem sua inteligência"
Há mais de 20 anos, a jornalista Eliane Brum já acumula cerca de 40 prêmios nacionais e internacionais por fazer da reportagem uma arte. Iniciou sua carreira no Jornal Zero Hora de Porto Alegre (RS) e mais tarde passou a integrar a revista Época, mantida pela Editora Globo, em São Paulo. Às vésperas de lançar seu primeiro livro de ficção, intitulado "Uma duas", quarta obra de sua carreira, a jornalista diz estar feliz em encarar mais um desafio. Ao contrário das outras três publicações -"Coluna Prestes - o avesso da lenda", "A vida que ninguém vê" e "O Olho da Rua" - em que Eliane Brum retrata o que a realidade tem a oferecer, dessa vez, as palavras serão dedicadas à ficção.

Eliane Brum não busca os grandes, prefere os anônimos. "Eu acho que são as histórias mais interessantes, além disso, a escolha quebra a lógica da pauta", justifica. Sua observação minuciosa e a linguagem literária adotada para revelar os fatos fazem da jornalista um nome forte entre os praticantes de um jornalismo diferenciado no país. Ao perceber a profundidade com que Eliane Brum trata suas histórias, foi difícil resistir a oportunidade de encontrá-la.

"Ao contar minhas histórias, tento descobrir o que move a vida das pessoas". A frase ecoou no Grande Auditório do Centro de Convenções Rebouças na última quarta-feira (26/05), em São Paulo. O olhar sensível de Eliane Brum pôde ser comprovado numa das mesinhas da lanchonete ao lado do espaço, logo após a palestra, em que a repórter nos contou um pouco mais de sua visão sobre o fazer jornalístico no Brasil.

A jornalista cumpriu o trato firmado por e-mail. Naquele dia, desejávamos saber o que movia sua paixão pela arte da escrita e, principalmente, da reportagem. Ela conta que, na infância ouviu histórias demais, a partir de então foi estimulada a contar seu ponto de vista sobre os acontecimentos. "Fui conhecer o New Journalism muito tempo depois de ter concluído a faculdade de jornalismo", revela.

A intuição nasceu do contato com a literatura. Daí para o relato jornalístico-literário foi um pulo. É difícil se adaptar ao padrão objetivo, no sentido da linguagem, quando a paixão pelo subjetivo fala mais alto. "Mas isso não dá licença para ficcionalizar o relato jornalístico", lembra a repórter. Na faculdade, e já no último semestre, Eliane Brum descobriu que tinha certa aptidão para humanizar o texto quando resolveu escrever uma matéria a respeito de todas as filas que um ser humano enfrenta desde o nascimento até o fim de sua existência.

Mais tarde, a jornalista seria adimitida no jornal Zero Hora, onde sempre procurou recortes diferenciados ao retratar a notícia. Ela fala da liberdade para produzir as grandes reportagens no Zero Hora. "Nunca tive dificuldades quanto a isso, acho que foi sorte. Meu editor-chefe pediu que eu produzisse alguns textos sobre o cotidiano e me deixou a vontade para dar ao assunto o foco que eu desejasse". Na revista Época, o mesmo livre-arbítrio seria concedido à Eliane Brum, que admite jamais ter sido obrigada a cobrir qualquer pauta que não a interessasse.

Sobre a internet, quer provar que é possível grandes textos no ambiente que parece exigir leitura rápida. "É possível a grande-reportagem na internet. Quem foi que disse que na internet só podem ter textos curtos? Tenho um texto publicado na Época online chamado "Minhas raízes são aéreas", essa entrevista tem 63.000 caracteres, o que equivale a quase 30 páginas de revista, e é a minha coluna mais lida nos últimos dois anos". Ela acredita que a internet tem uma lógica muito favorável à publicação de grandes reportagens, pois não se limita ao espaço nem ao número de folhas que deve ocupar.

Por opção, hoje a jornalista não figura mais entre a equipe de Época. Em 2010, Eliane Brum conta que houve grandes mudanças na sua forma de ver a vida. A reviravolta aconteceu por causa de uma de suas reportagens em que acompanhou Alice de Oliveira Souza, uma merendeira que descobriu o câncer quando finalmente iria descansar à sombra da aposentadoria. "Descobri naquele momento que a única riqueza que temos de verdade é o tempo, e eu queria me reapropriar totalmente do meu".

Depois do encontro com "Ilce", a jornalista admite ter outros olhos. Principalmente, em relação à vida. Sua missão é transmitir experiências e histórias por meio de pessoas supostamente comuns, aquelas que, aos olhos da grande mídia, não merecem virar "notícia". Em suas mãos, o aspecto "comum" ganha brilho e cor. Em seus textos, percebe-se a importância dada a operários, faxineiras e merendeiras. Segundo a jornalista, são eles os que realmente constroem esse país.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Se esse Fusca falasse...

Atire a primeira pedra quem nunca preservou aquele velho artefato com apego inestimável. O mesmo que abriga gerações de traças e já faz história pela ferrugem - esta fiel companheira desde o fim da juventude - vê a perenidade escorrer pelo tempo. Mas, nem tudo está perdido. Até mesmo a mais ínfima das substâncias físicas, a pleno vapor da corrosão, pode resistir ao óbito quando ingressa no caminho da reforma. É deste princípio que sobrevive o Fusca 1970 do pedreiro Cristiano Alves, conquistado no ano de 2005 a duras pás de cimento.

O carro é moeda de troca. Foi porque Cristiano ergueu um muro na casa do amigo que a peça veio parar em suas mãos. “Ele pediu que eu levantasse um muro na sua casa, em troca, prometeu, me daria o Fusca. Foi amor à primeira vista.” Depois de um tapa no visual, o carro ganhou cara nova e um nome: “Cara Preta”. Explica-se. A obra tem impressa na lataria cores opostas: o preto e o branco. Não à toa. Corinthiano convicto, o contraste é a combinação preferida do dono.

Mais branco do que preto, o Fusca carrega peculiaridades: embreagem quebrada, faróis queimados, arames seguram o assoalho e uma lata de tinta serve de banco-passageiro. Pasme: segundo Crisitano, o carro leva diariamente seus oito amigos ao trabalho.

Frente à falência do limpador de pára-brisa, um deles resolveu dar sua contribuição. É Raimundo Nonato quem salva a turma. Em dias tempestuosos, a invenção do limpador de pára-brisa manual faz sucesso entre os passageiros do automóvel. “Amarrei um barbante de cada lado e, quando a chuva aperta, é só puxar de um lado para o outro”. Reformado? Não para Rejane. Casada com Cristiano, a empregada doméstica crê que se existe um lugar certo para o carro, esse lugar é o ferro-velho.

Ela desabafa os apuros que sofreu quando ainda subia na “fubica” – é como se refere quando fala do carro. “Passamos numa curva muito fechada. Me desequilibrei da lata e, como a porta é enferrujada, ela abriu e eu caí na rua. Foi a gota d’água”. Quando grávida, e há algumas horas do parto, Rejane não teve dúvidas: subiu no primeiro ônibus que brotou e foi-se para o hospital. E olha que o velho Fusca tinha lá certa ligação com a criança que chegava ao mundo. Assim como os dizeres que Cara Preta carregava na traseira, a filha nasceu “careca, pelada e sem dente”. Para ambos, tudo era lucro.

Em Itapevi, município da Grande São Paulo onde Cristiano desfila com o veículo, o prazo de validade dos carros velhos demora a se esgotar. A vasta gama de automóveis em degradação desperta a curiosidade e o medo de moradores andantes e àqueles ao volante. As oficinas raramente recebem o ar de sua graxa. Relatam os mecânicos que os donos preferem aderir ao jeitinho brasileiro, apelidado de gambiarra, para não desembolsar o valor do conserto alheio.

Mas será que todo carro velho é de fato velho? Cristiano propaga sua filosofia. “Não vejo mal em ter um carro desses, afinal, onde um carro zero chega o antigo também pode chegar. É melhor ter um “podrão” que leva e trás do que não ter nenhum”, ressalta. Ao que parece, a paixão brasileira por carros vai além das aparências. O que vale é andar sobre quatro rodas, mesmo que elas sejam claudicantes.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

José Hamilton Ribeiro, um repórter de grandes histórias


José Hamilton Ribeiro é uma daquelas figuras difíceis de esquecer. Jornalista desde 1955, o repórter de encanto singular demonstra também algo incomum em grandes profissionais da imprensa: a simplicidade. Foi ali, numa das livrarias da capital paulista que “Zé Hamilton”, como permite ser chamado,  discursou e encantou duas aspirantes à prática de um jornalismo mais profundo e cercado de humanidade.

Pela Universidade Federal de Santa Catarina, o “Zé” já é doutor no ofício jornalístico. Na internet, um documentário sobre o “príncipe dos repórteres” circula na rede e leva adiante informações e um pouco da imagem carismática do jornalista, que atualmente integra a equipe do programa Globo Rural, exibido pela Rede Globo de Televisão.

José Hamilton compõe o grupo de jornalistas que gostam de tocar fisicamente os cenários e os personagens de sua reportagem. Ingressou no curso de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero na década de 50, e, ainda como estudante, teve seu primeiro contato com a imprensa ao cobrir férias de um jornalista na rádio Bandeirantes.

Após ler um anúncio na então Folha da Manhã – hoje Folha de S. Paulo -,  resolveu candidatar-se à vaga de jornalista. Marcou uma entrevista e recebeu um telegrama comunicando a aprovação para ocupar o posto no jornal. Tinha 20 anos de idade quando ingressou na redação e conta: “naquela época jornalista ganhava muito mal, os caras não eram sócios de clube, nem academia, jornalista era um tipo de um cartorário, trabalhador de cartório, mas ali tinham grandes poetas”.

Zé Hamilton segue seu próprio ritmo, vai falando de suas experiências e parece deixar o tempo correr a vontade quando a pauta da conversa é falar de jornalismo. Ele ensina que somente quando o repórter coloca-se a campo é que pode descrever com tamanha precisão e sensibilidade os fatos que envolvem o foco da reportagem. O jornalista aponta que a reportagem pode ter sido fator essencial na projeção da Folha como um grande jornal nacional para a época: “de um discreto jornal paulistano ao maior jornal do país”, segundo ele.

De qualquer forma, vale lembrar que hoje o espaço dedicado às grandes reportagens dentro dos jornais ainda é bastante limitado. O gênero parece libertar de tal maneira o jornalista das amarras do jornalismo convencional que não admite ser calculado em caracteres. Se a história narrada precisa ser detalhada a ponto de demonstrar nitidamente as experiências e impressões do repórter, talvez o bloco de texto dividido em três colunas não suporte o anseio de liberdade proposto pelo jornalismo literário.

Na revista Realidade, Zé Hamilton foi um dos grandes nomes a integrar a equipe criteriosamente selecionada pela editora Abril. As perguntas  quanto à passagem do repórter pelo veículo era certa na entrevista. Quando questionado sobre a reportagem que teria marcado sua vida, o jornalista cita logo a cobertura sobre a guerra do Vietnã.

O primeiro relato sobre a guerra (publicado na edição nº 26 de Realidade) refere-se ao acidente causado pela explosão de uma mina já nos últimos dias de sua passagem pelo cenário do combate. O repórter diz que a reportagem o marcou “também fisicamente”, ocasião em que perdeu a parte inferior de sua perna esquerda. Mas a matéria sobre a rotina no Vietnã seria contada na próxima edição, sob o título “Guerra é assim”. É nesta publicação que o jornalista descreve com riqueza de detalhes a situação do povo vietnamita frente ao combate norte americano.

Na foto, José Hamilton Ribeiro estampa a edição 26 de Realidade.
O jornalista perdeu a parte inferior da perna esquerda ao cobrir
 a guerra do Vietnã para a revista.

A respeito do sucesso de Realidade em seu tempo de publicação, José Hamilton revela que não acredita que hoje uma revista alcançaria tamanha expressividade como teve a publicação. Na visão do jornalista “o mundo é outro, a Realidade foi fruto de circunstâncias que não existem mais”. O jornalista reforça que uma revista bem feita no Brasil, de reportagem com qualidade de texto, como a Realidade , e ajustadas no tempo de hoje, não seria uma explosão de vendas mas com certeza teria leitores cativos. “A leitura é um prazer, e uma revista de leitura se faz com bons textos”, reforça Zé Hamilton.

Sobre a internet como meio de veiculação das grandes reportagens, o repórter considera o suporte como ferramenta, comparando-a com um tonel vazio onde as pessoas colocam o que bem entendem. “Ali vai ter jóias, vai ter anel de brilhantes, uma fotografia linda, um poema maravilhoso, pensamentos, mas vai ter tanta porcaria”.

Ao conceder uma entrevista certa vez, ouviu de uma repórter a dúvida que percorre a cuca de muitos admiradores de seu trabalho: “Como um repórter de tamanha categoria se limita a falar de boizinhos e vaquinhas na TV?”. Zé Hamilton é certo no falar: “O Globo Rural transmite ao público a alma do homem que vive no campo. E você vai dizer que a alma do homem urbano é maior que a daquele que vive no campo?”. Eis um pouco da essência desse jornalista de face iluminada e conversa recheada de riquezas.

Cara e coragem de João Antonio


"A vida foi me dando porradas, me dando, até que eu aprendi a escrever em qualquer canto. Sem precisar de casa ou de quarto. Qualquer boteco é lugar para se escrever quando se carrega a gana de transmitir. Gana é um fato sério que dá convicção".



A frase não poderia ser de outro. João Antonio (1937 -1996), repórter das ruas, um trabalhador da imprensa alternativa, ou 'imprensa nanica', como diria no Pasquim, percebeu com a prática jornalística que ficar preso em uma redação com jornalistas engomadinhos não era lá sua vocação. A respeito dos colegas de profissão, ostentava uma visão depreciativa, quase furiosa :

"Comprado e vendido. Safardana e omisso. Apenas sobrevivendo numa sombra do boi vergonhosa, fina-flor da calhordice vigente.E sem utilidade pública nenhuma, diga-se de passagem (...). Acabará escrevendo elegante e bonito".

João Antonio amava mais aos deslocados, às personagens que viviam às margens da sociedade. Adorava vaguear São Paulo em busca de alguma estória que aos olhos comercialmente inflexíveis da imprensa seria inútil, motivo que o fazia enfurecido. Seu livro 'Abraçado ao meu rancor', de 1986, retrata bem o desgosto que tomou João Antonio ao notar que o 'Brasil verdadeiro não aparecia nas páginas dos jornais e revistas'.

Mesmo assim, João Antonio integrou a equipe da revista Realidade em 1966, talvez a única do período
que pudesse conceder o mínimo de liberdade à essa alma rueira que queria retratar 'o outro lado' da vida
brasileira a todo custo, e que não se entenda a expressão em sua forma eufemística, pois o jornalista, depois de seus anos como repórter na Realidade, abandonaria casa, salário, emprego e mulher em troca da matéria que adviria da conturbada condição de quem faz da rua o lar .

O elenco de personagens escalado por João Antonio mudou. Mendigos. Prostitutas.Paraíbas. Sinuqueiros. Pobretões. Uma gama de excluídos que (sobre)viviam às margens do sistema, mas que nas mãos -e olhos- de João Antonio ganhariam papéis centrais na tragédia que não deixa de ser cômica, dentro de suas paradoxais condições, de se sustentar uma existência nas ruas das cidades mais furiosas do país.

João Antonio parece ser movido por uma vontade de contar e contar, bradar a realidade até fazer as pessoas entenderem que nem todos vivem num mundinho confortável. Malagueta, Perus e Bacanaço, livro de1960, narra a existência dos 'invisíveis' ; o humor da obra não desvia o leitor das reflexões acerca da dura realidade vista na vida que se arrasta nas ruas.

Melhor definição não poderia vir senão da boca acervejada do próprio autor:

"Malagueta, Perus e Bacanaço é o último (conto) do livro e conta as andanças aluadas e cinzentas de três vagabundos, malandros, viradores numa noite paulistana. Quebrados, quebradinhos, sem eira nem beira, partem da Lapa. Há esperança. Arrumariam dinheiro, revirariam a cidade. Andam, jogam, caem, levantam, reviram subúrbios, de novo tropicam, ganham, perdem, deforram. Lapa, Água Branca, Barra Funda, Cidade, Pinheiros, Lapa.Como terminam é como terminam. Murchos, sonados, pedindo três cafés fiados".


O livro é apenas um exemplo da irreverente obra de João Antonio. Vale a busca das risadas, lágrimas e sobretudo de clareza de ideias que este ousado jornalista, repórter, mundano é capaz de proporcionar através de seus relatos em outras de suas obras. Dá-lhe João!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Inspirações e experiências do New Journalism

A partir de 1960, o mundo assistia o caos das mudanças sociais que afetavam a sociedade daqueles dias. Guerra, assassinato, rock, droga e movimentos hippies constituíam uma fase incapaz de passar despercebida pelos olhos dos integrantes das grandes metrópoles e influenciaram as relações sociais. O jornalismo e seus escritores se encontravam entre aqueles habitantes e, com sua forma objetiva, não seriam capazes de descrever exatamente tudo o que cercava os seres humanos daquela época. Essa confusão, acentuada principalmente nos Estados Unidos, deu vazão a um tipo de escrita mais consistente e profunda, tentando atingir o nível de mudanças pelas quais a “terra do tio Sam” também atravessava naqueles dias.

Surgiam os novos jornalistas. Trazendo em suas bagagens a influência da ficção norteamericana e dos grandes romancistas, eles se dispuseram a contar à sociedade daquele tempo o que sucedia nos anos 60 e 70 e o que tudo aquilo significava. Era o auge da não-ficção criativa, considerado o maior movimento literário desde o renascimento da ficção americana dos anos 20 e que lançou as estruturas do Novo Jornalismo, uma tendência advinda do próprio jornalismo que trabalhava o fato como uma espécie de obra de arte. Mergulhados nas influências da ficção, os textos afloravam pelas mãos dos jornalistas e transportavam a realidade dos acontecimentos carregados de detalhes minuciosos ao leitor.

John Hersey, um dos precursores
do New Journalism
Foi John Hersey quem deu o pontapé inicial na disseminação do gênero pela América do Norte ao cobrir a Segunda Guerra Mundial de maneira nunca vista entre os jornalistas, assumidamente influenciado pela estrutura da ficção. Considerada a reportagem mais importante do século XX pelo Departamento de Jornalismo da Universidade de Nova York, o livro Hiroshima é o desenho de Hersey sobre uma paisagem devastada pelas bombas lançadas pelos Estados Unidos nas cidades de Hiroshima e Nagasaki em 1945. O que torna a obra uma referência para o Novo Jornalismo, é, entre outras coisas, a intenção de Hersey em documentar o impacto da bomba sobre pessoas (e não sobre prédios) e a maneira como descrevia as situações. Nem mesmo as reações internas dos personagens escapavam de suas anotações. A inspiração de Hersey tinha nome e sobrenome: Thorton Wilder e sua obra A ponte de São Luís Rei. Foi a forma como Wilder relatou a queda de uma ponte de cordas, concentrando-se nas vítimas do acidente, que inspiraram a narrativa do jornalista.

Foi Tom Wolfe quem deu nome
ao novo estilo
de se fazer jornalismo 
Outro grande nome do Novo Jornalismo, Tom Wolfe, também foi arrebatado pela forma de escrita do romance-ficção. O entusiasmado observador de Nova York mergulhou de cabeça nas cenas urbanas instigado pela trilogia de James T. Farrell. O personagem Studis Lonigan teve sua história criada por Farrell de maneira tão instigante, que atraiu a atenção de Wolfe. O relato corajoso e franco do romancista sobre o crescimento humano, a partir do material bruto da vida de uma criança, acabaria dominando o estilo do jornalista em seus monólogos interiores. Os fatos não eram a principal preocupação de Wolfe, a ideia dele era registrar a cena acrescentando detalhes peculiares que outros classificariam como secundários.
A obra A Sangue Frio, de Trumam Capote, foi a mais lida
entre os novos jornalistas do Brasil da década de 60
O jornalista Truman Capote também acreditava numa narrativa que mergulhasse fundo nas cenas e na vida dos personagens. Ao ser convocado para cobrir o assassinato de uma família de agricultores em 1959 nos Estados Unidos, Capote inspirou-se na obra de Hersey e recriou os acontecimentos usando a voz do romance. Tendo dois assassinos como as únicas testemunhas do crime, o caso  transformou-se num desafio para o escritor que não usava gravadores e abominava anotações, contando apenas com a ajuda de uma amiga para registrar os relatos. A reportagem ganhou publicação na New Yorker em 1965 e bateu recordes de venda da revista. A história virou livro sob o título A Sangue Frio, e, segundo o próprio autor, inaugurava o romance de não ficção. A declaração provocou grande polêmica entre os críticos de seu país que chegaram a negar o lugar da obra no contexto literário, porém, devido o sucesso comercial do livro, a “nova” forma literária não tardou a conquistar seguidores. No mesmo ano, o livro foi traduzido e publicado no Brasil, inspirando os novos jornalistas que surgiam por aqui.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Dois poetas jornalistas: Gregório de Matos e Carlos Drummond

Poesia no jornal, o que você acha? “A poesia está nos fatos”, já dizia Oswald de Andrade.Tomei dois representantes dessa fusão maluca de um 'jornalismo versificado', disposto em forma de versos, e nem por isso menos ativo, reativo, combativo e informativo: características que, se não nascem com os jornalistas,ah, deveriam ser implantadas em suas cabeças durante os frágeis-falhos-falsos cursos de formação de nossos tempos.
 
Mais de um século separa o poeta baiano Gregório de Matos (1623 - 1696) do poeta jornalista escritor Carlos Drummond (1902 - 1987). Se são separados pelo tempo, não são em intenções. Ambos embutiam espécie de fúria política entreversos. No entanto, Gregório não poderia estar poetando, muito menos na forma como fazia, jornalística e política, numa época que a imprensa ainda era proibida no Brasil.

Por outro lado, Drummond passava por uma proibição diferenciada, pois foi durante o Modernismo, período de sua maior produção, que os gêneros jornalismo e literatura foram se fragmentando, tornando incompatível a escrita poética com os veículos impressos. Nem por isso Drummond deixou de ser jornalista em poesia :

Fato e repórter
unidos
re-unidos
num só corpo de pressa
transformam-se em papel
no edifício máquina
da maior avenida,
devolvendo ao tempo
o testemunho do tempo


(Trecho de “A casa do Jornal, antiga e nova”, 1973)

Já Gregório encontrou na poesia uma maneira de mostrar sua veia jornalista, revoltamente afiada, pulsando por liberdade de expressão. Após ser exilado em Angola por suas palavras, o poeta volta ao Brasil para rimar “ a Bahia que regurgitava no mais desatado desvario de costumes”, (como diz Segismundo Spina em sua reedição de 'A Poesia de Gregório de Matos').

Eu sou aquele que os passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios e enganos

De que pode servir quem se cala?
Nunca há de se falar o que se sente?
Sempre há de se sentir o que se fala

Qual homem pode haver tão paciente,
Que, vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?


(Trechos separados de "Aos Vícios")
 
Os escritos destas figuras marcam e demarcam contexto social, econômico e histórico inscritos em seu tempo. Hoje jogam-se sapatos na cabeça dos líderes (com certeza a cena do jornalista iraquiano jogando o sapato na cabeça de Bush será um marco histórico). Antes, atiravam-se palavras. E com efeito! Hoje... hoje falta coragem para um tiro certeiro na ousadia canalha dos líderes pilantras, faltam palavras para retratar a quietude que esconde a anomalia social.Hoje falta poesia de fato, de fato falta a poesia.
 
 

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Língu'ácida de Joel Silveira

                                                                                          
Foto:  Bel Pedrosa/ Folha Imagem

A caminho de uma entrevista com o jornalista Joel Silveira, no ano de 1999, um repórter resolveu por bem chegar duas horas mais cedo na casa desse velho combatente das letras. Só não esperava a grosseira receptividade:

- Vocês marcaram às 16h! – soltou o jornalista num resmungo quase mortífero.
Mas não se assuste. Quando se trata de Joel Silveira, o veneno das palavras já é velho conhecido. Eis um jornalista que sabia o que fazer com suas ironias, traduzi-las em texto ferino. No tempo da era getulista, os assuntos em relação à política e à vida particular dos Getúlios foram impostos como segredo de estado, nada a respeito deveria ser publicado nos veículos de comunicação da época. Oportunidade ideal para que Joel Silveira, o “víbora”, fosse à caça de outras pautas: a vida social e seus grã-finos que sobreviviam à custa da pompa.
Sergipano da cidade de Lagarto, o jovem Joel saiu com seus 26 anos de idade à procura de emprego na então capital federal, o Rio de Janeiro, no ano de 1937. Há tempos que seu pai já consumia o semanário Dom Casmurro e foi lá que o jornalista bateu primeiro, pedindo uma chance para também publicar seus escritos.  Em 1938, a convite de Samuel Weyner, passou a integrar a equipe de Diretrizes, um dos veículos mais respeitados do período. Foi quando nasceu sua primeira reportagem de sucesso: “Eram assim os Grã-finos em São Paulo”, publicada em 1943 causou burburinho no meio da sociedade tradicional paulistana.
Joel Silveira morreu aos 88 anos no ano de 2007,
vítima de câncer na próstata
Vale a pena ler a produção.  Joel literalmente se infiltrou na vida social da elite paulista e passou a freqüentar os lugares mais visitados do público-alvo de suas críticas. Um texto fino, é verdade, mas recheado de ironias, sutilezas, adjetivos matadores e metáforas pontiagudas, tudo para temperar sua reportagem. Em certa altura, explica francamente para o leitor o que era o conhecido “chá na Jaraguá”: “um ponto onde Fifi marcará encontro com Lelé para falar mal de Zuzu”. Os livros e a intenção dos organizadores em promover a cultura foram apenas coadjuvantes no fato que não escapou ao foco do jornalista.
Os intelectuais até tentaram, criaram a tal da “Bolsa do Livro”. Joel esclarece em poucas palavras: “Um pedaço de cartolina pregado numa parede da livraria. Um cavalheiro que tenha um livro raro para vender escreve o nome do livro e o preço na cartolina. Outro cavalheiro, que deseje adquirir uma raridade, faz a mesma coisa. Na tarde em que estive na Jaraguá, visitei a cartolina: o lado das preciosidades estava repleto.” A reportagem retratou muito da vida que os paulistanos abastados levavam no início do século XX. Joel foi tragado por aquele jornalismo ousado e literário e explorou a eficácia da narrativa irreverente. O veneno das palavras casou com a originalidade do jornalista, considerado até hoje como um dos pioneiros do fazer jornalístico-literário no Brasil.  E viva a víbora!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Ana-rock, depressão e lambidas

Parte I

"A mulher desesperada parte de casa"

Ana tentou o suicídio algumas vezes. Brigas conjugais derivadas de incertezas amorosas- traições, para sermos diretos-, afastamento da 'pátria' - antes morava na Lapa de São Paulo, não num cubículo na zona periférica de uma cidade qualquer. Ana não era uma qualquer, era Ana-rock. Cara de santa, e a respeito deste cariz os biógrafos já sabem: são terríveis. Lançam chamas na Terra e continuam impassíveis de repreensão, tamanha falsidade dos olhos que cismam em permanecer translúcidos.

Ana-rock. Tratamento psiquiátrico porque um fiscal ordinário de hospitais e clínicas das redondezas de Ana fingiu ser um paciente e, vendo que não era médica, apenas uma simples enfermeira com cara de gostosa, falou que poderia continuar com certificado de experiência em enfermagem, o COREN, pela quantia mínima de R$15 mil reais.

“Você é boa, cuidadosa, mas não pode fazer esses procedimentos. É uma simples enfermeira, não é médica, não está apta a realizá-los. Vou tomar o teu COREN".

Depois de enfrentar uma cara de anjo em desânimo e algumas lamentações, o da fiscalização mostrou-se enfraquecido à oferta que, imagina, antes nem havia lhe passado pela cabeça.

“Está bem, oras. R$15 mil limpinhos e da próxima vez nem a colher de chá ofereço”, remendou, tentando, agora, mostrar uma sub-ética fajuta.

Ela ficou um caco. Pior que fim de balada ao meio-dia na Love Story, ‘ a casa de todas as casas’.

Ana-rock não se matou – não antes de cumprir a sua missão (de sexta-feira) no mundo. Desceu a Augusta, estacionou na Bela Cintra. Vestido preto curto, sapatos de saltinho, os cabelos bem lisos e negros emoldurando a face branca, essa tão desejada pelos safados paulistanos de plantão. Pensou no Vegas, não. No Alberta, na Love Story –furada, furada,furada-, não. Na A Lôca? Talvez. Gostava das músicas das Divas e dos gays divertidos que logo se familiarizavam com seu jeito animoso.

Andou pela Augusta mais uma vez, a excitação corria cada passo com as suas pernas finas. Há tempos não via as pessoas tranformadas que a baixa Augusta revela. Há tempos não respirava a contaminação, afetação, desajuste, cheiro de vômito misturado ao do desejo. Mas ainda não estava a toda. Queria ser engolida pela noite. Um caminhar, apenas, perderia o efeito e logo a faria voltar para os pensamentos sobre a vida chata, roupa de marido, insegurança, lágrimas e fúria por não ser escutada entre a correria lamuriotediosa do dia-a-dia.

Certa vez Ana-rock estava de conversa com seu par, quando percebeu que ele a ignorava. Não podia passar desapercebida, não ela, na sua meninice mulher, tão bela e desejada por outros homens; digna da atenção de muitos – até de mulheres, dizem-, mas não da compreensão de seu homem. Pelo menos não naquele momento em que se atirou com fúria sobre ele, estapeando-o e chutando-o e encarando-o em bramidos surdidos como somente uma mulher em convulsa confusão é capaz de fazer no meio da rua. Por amor, claro.

Ana-rock, depressão e lambidas

Parte II

“Agora eu sou rainha”

Ana-rock entrou finalmente na danceteria A Lôca. Conceituou que a música ruim e a gente desinteressante não mudariam de cena naquela noite nem depois de muitos drinks. Foi-se embora.

No caminho de volta ao carro, uma luz arroxeada. Olhou para a janela tentado espreitar o que acontecia no segundo andar daquela casa, mas nada conseguiu decifrar sem ser o som, que parecia de boa qualidade, vazando janela afora.

Subindo as escadas, o mistério fez-se revelado. Uma mocinha de chicote e vestes de couro pressionava os dentes e soltavas uns grunhidinhos, uns ‘uaáarn, uaáarn’, pelo canto da boca pintada. Lá em cima, perto dos sofás, imergiam sob a luz negra, pesarosos caídos no sofá, uns casais que pareciam se divertir com dancinhas e apalpões leves nas nádegas e tórax uns dos outros.

Sua branquiosidade chamou a atenção de um cara que estava atrás dos
balcões do bar. Dentre as garrafas de Martini, Saquê e Labels, surge o careca tatuado. Pega Ana-rock pelos braços marmóreos finos e a convida para um passeio pela casa.

Profusão de acessórios do mesmo material da moça do chicotinho, gaiolas, algemas, brinquedos espinhosos e pesados em geral, o das tatuagens e Ana-rock passavam pelo corredor dos gemidos. Urros. Ais. Mulheres por cima, sempre.

“Aqui a mulher é tratada como rainha”, disse o careca e dono da casa.

Bisbilhotando bem a Ana, teus olhos viram tudo, mas concentraram-se nos pés brancos – na metade deles que aparecia conforme o modelo do sapato induzia.

Embromou uma conversa sobre a criação da casa, como funcionava a entrada e hábitos que eram cultivados. Engatou na sequência uma pergunta bastante objetiva:

“Posso lamber teus pés?”

Sem consultar direito a moral que já não lhe era de costume, Ana-rock mais se empolgou com a possibilidade de experimentar o novo do que com os freios que a mente poderia vir a lhe impor. Deixou, por final, retirando os sapatos e entregando ao careca um pé branco-rosado.

Fechou os olhos. A língua dele começou no dedão, na parte final dele, e foi subindo pelo dedo, subindo até atingir a extremidade, com uma chupada. Foi para o próximo dedinho e fez o mesmo. Ela fechou os olhos. Sua língua passou entrelambidas pelas frestas dos dedos, não deixando um espaço sequer sem a saliva da invertebrada serpente.

Sentindo-se em frenesi, Ana foi conduzida até a sala ao lado. Era tarde demais para falar não. Foi acomodada em uma comprida cadeira de couro e convidada a ‘relaxar’. Ana virou Morgana – foi assim que ele a chamou. Rainha das trevas, mulher que manda, ele ali, aos seus pés, literalmente.

Deixou a cabeça declinar à parede vermelha, continuou de olhos fechados e pé estirado para as lambidas. Ela podia pedir o que quisesse, sobreavisou o careca.

Saiu de lá extasiada, a Ana. Pegou o carro e voltou para a casa. Quando chegou caminhou em passos leves rumo ao quarto, botou uma bonita camisola e deitou-se ao lado do marido. Neste fim de noite, ela sorriu, não ia dormir como um anjo. Ia dormir como uma rainha. E não lavou os pés.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

De alma arlequim

Roberto Rodrigues Vargas tem 47 anos e, há 40, acredita ter nascido com uma missão: desbravar as faces mais sombrias e trazer à luz os sorrisos da alma. Desde os sete anos de idade herdou do pai a arte circense. A partir de então, decidiu ser conhecido como o palhaço Pirulito.

Inscrita sob o código 3762-45 na Classificação Brasileira de Ocupações, a profissão aceita denominações variadas: “palhaço”, “clown”, “cômico de circo”, “excêntrico” e por aí vai. Para Pirulito, pouco importa a nomenclatura: se a plateia sorrir, o ego se encarrega do resto. Desde muito cedo acreditou na arte e tratou de tocar a vida montando e desmontando a lona de seu circo à procura do respeitável público.

Os convites vinham de toda a parte e o sucesso acompanhava o côncavo de tinta vermelha desenhado nos lábios do palhaço. Certo dia, a natureza deu um basta na rotina. Uma ventania de proporções catastróficas pôs abaixo anos de economia, depositados na cobertura “cor-sim-cor-não” (laranja e azul) do picadeiro. O abrigo das palhaçadas era só tristeza, nada pôde ser reaproveitado. Restava alguns poucos ganchos metálicos e cordas suspensas no ar. Não foi o bastante para continuar a caminho de outros palcos.

Sem a estrutura do circo, Pirulito acreditava no talento que possuía. Com maquiagem e fantasia debaixo do braço saiu a oferecer seus dotes em escolas, igrejas e casas de umbanda. “De tempos em tempos eles organizavam festinhas dentro do terreiro, a descontração ficava por conta das minhas piadas”, justifica. Ele conta a preferida do público: “Se o cachorro tivesse religião, qual seria? Cão-domblé”. Cobra R$ 50,00 por apresentação, o que considera um preço justo. Não foi o que achou o pastor de uma igreja abrilhantada pela performance do palhaço num evento com os fiéis. Até hoje, Pirulito espera receber das mãos do líder o pagamento pelas horas de diversão.

Crente convicto, Roberto pediu a Deus mais um talento, que outros colegas seus parecem ter: o político. Não que desejasse o poder máximo da República. Suas pretensões eram bem mais modestas. Desejaria apenas ter ocupado uma das cadeiras na Câmara Municipal de Jandira, cidade em que reside desde que nasceu. Entre 113 mil eleitores, Pirulito convenceu 26 e alcançou o 179º lugar como vereador, num total de 208 candidatos.  Feito comemorado pelo artista circense.
Ele fala sobre o desvirtuamento da profissão. Basta um escândalo na política - e eles não faltam - para que muitos coloquem o nariz vermelho e saiam às ruas para protestar. “Esse nariz representa uma profissão digna!”, reclama. Os escândalos protagonizados por prefeitos, governadores etc., não são uma palhaçada na visão de Pirulito. "Aquilo é coisa de bandido, não de palhaço”.

Indignado, resolveu desistir do caminho político e render-se às festinhas de aniversário. É delas que sai atualmente o sustento para a esposa e a filha com seis anos de idade. Vira e mexe aparece alguma mãe desesperada pela atração mambembe na festinha do filho por um preço camarada. Pirulito não recusa trabalho e é bastante requisitado pela fama de facilitar a vida de seus clientes. Oferece desconto, aceita fiado e, por motivos óbvios, acaba fazendo shows de graça.
O palhaço não gosta de falar sobre suas desgraças, prefere rir e contar uma piada: “Sabe o que Papai Noel responde quando uma criança pergunta se ele roe unha ? Rou rou rou rou rou rou!” Diante da timidez da repórter, resolveu ele mesmo rir. Um sorriso amarelo, é verdade. Mas é melhor que nenhum. No reflexo do riso, surge a melancolia. “Tenho ainda um desejo para a morte, ser velado com cara de palhaço”. Segundo sua imaginação, as pessoas chorariam de tristeza e depois iriam rir da surpresa – e ele riria por último.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

A revolução em Realidade

Diferente das revistas de sua época, Realidade estampava em suas capas imagens que fugiam dos belos rostos femininos
                                                                              
Quando o Brasil entrava em seu terceiro ano de regime militar, em 1966, chegava às bancas a revista Realidade, capaz de expressar um jornalismo inovador e que conquistou fama de publicação “revolucionária” por reproduzir reportagens ousadas sobre os problemas sociais que o país atravessava naquele período.   

Apontada como um marco na história da imprensa no Brasil, a revista reuniu grandes nomes do jornalismo brasileiro influenciados pela corrente do New Journalism norte americano, um tipo de escrita iniciada pelo jornalista Tom Wolfe que empregava recursos literários para narrar eventos não ficcionais. Nomes como Eduardo Barreto, José Hamilton Ribeiro, Granville de Ponce, Woile Guimarães, Sérgio de Souza, José Carlos Marão, João Antônio, Dirceu Soares, Luiz Fernando Mercadante, Mylton Severiano da Silva, Otoniel Santos Pereira, Roberto Freire, Octavia Yamashita, Eurico Andrade, Paulo Patarra, Narciso Kallili e Carlos Azavedo afloraram uma produção jornalística singular, que forneceu à reportagem brasileira uma dimensão reveladora e marcou o gênero jornalístico no país.

A linguagem convencional não se igualava aos recursos discursivos utilizados na revista, conduzidos para formas literárias e ficcionais de narrativa que ampliaram sua penetração junto ao leitor. Realidade revelou ao seu público significados de uma época de mudanças e forneceu informações de perspectiva global, fomentando sua própria existência como ferramenta de análise do cotidiano. O veículo fugia de um suposto jornalismo objetivo quando priorizava textos de profundo envolvimento por parte do jornalista, permitindo uma escrita mais solta e livre de estruturas pontuais. A inquietação intelectual vivida pelo país naquela década reforçava a possibilidade de superar os limites do padrão de linguagem informativa, e o New Journalism apresentou a saída para essa limitação quando propôs um texto flexível e repleto de detalhes, baseado nos elementos narrativos das obras ficcionais.         

Esse conjunto de ferramentas serviu de base para as reportagens de Realidade que inauguraram a essência do “novo” jornalismo no Brasil. O quadro político do pós-guerra, o fenômeno populista, as questões nacionalistas, as eleições e o aumento da participação das massas urbanas no cenário social só fez aprofundar os rumos desse novo estilo de escrita. No momento em que a simples objetividade da imprensa carecia de recursos para acompanhar o ritmo da vida nacional, o jornalista dos anos 60 trouxe consigo a perspectiva de mudança, inquietação e revolução e sentiu a necessidade de traduzi-la nos textos. E foi neste contexto que a revista nasceu, na tentativa de revolucionar a sociedade a partir da reinvenção da linguagem jornalística.
 

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Dramaticices de Nelson Rodrigues


Antes de me meter a estudar o Jornalismo Literário no Brasil, eu não imaginava que o espetacular Nelson Rodrigues (1912-1980) havia passado por diversas redações de jornais, veículos onde deixou marcado o seu dom de retratar o comportamento social quase que em tempo real através de suas crônicas, folhetins e matérias em geral.

Nelson foi por 16 anos repórter policial do diário ‘ A manhã’, passando pelo ‘Correio da Manhã’, jornal de seu pai, diário ‘Crítica’, em que voltou a falar sobre crimes, ‘Jornal dos Sports’, destinados às críticas de futebol, esporte que fascinava Nelson, ‘O Globo’, onde trabalhou como sem ganhar um tostão até que se assentasse no veículo, ‘O Jornal’, de Assis Chateaubriand, e passou até pela redação do ‘Última Hora’, de Samuel Weiner.

Os colegas de redação não acreditavam como Nelson podia sentar em sua cadeira e, dentro de instantes poucos, tirar da máquina uma amostra de situações cotidianas as quais a raça humana está fadada a enfrentar. Transformava com destreza qualquer drama do cotidiano, uma história de Joões e Marias qualquer, numa crônica ou conto portador de minuciosa descrição narrativa, com maior foco no comportamento das personagens e descrição dos ambientes. E o mais atraente de tudo é que, na cabeça de Nelson, os personagens enfrentam tais fatos da pior maneira possível.


“Até o quinto encontro, Simão foi um namorado exemplar. Tratava a pequena como se fora uma rainha, e mais: levava-lhe, todos os dias, um saco de pipocas, ainda quentinho, que comprava num automático da esquina. Encantada, Malvina vivia dizendo para a mãe, as irmãs e a vizinha: - “É o maior! O maior!”.
Mas no sexto encontro fez-lhe uma pergunta:
- Tu acreditas em Deus?
Respondeu:
- Depende.
Admirou-se:
- Como depende?
Simão foi de uma sinceridade brutal:
- Acredito quando estou com asma.
Malvina recuou, num pânico profundo. No primeiro momento, só conseguia balbuciar: - “Oh, Simão!”. Mas ele, com a sinceridade desencadeada, continuou:
- Com asma, eu acredito até em Papai Noel!”

Trecho de O homem fiel, em O Melhor do Romance, Contos e Crônicas, de Nelson Rodrigues, Ed. Folha, 1993,


Nelson não foi, de fato, um jornalista literário; o termo demorou a ser utilizado no Brasil, tornando-se um pouco mais conhecido apenas na época da revista Realidade, que circularia por dez anos, a partir de 1966. Nelson foi, antes de mais nada, um observador atento, dramaturgo de primeira e jornalista, a seu modo.

Mas sem dúvida aqueles que pretendem fazer um jornalismo com remeleixos literários não devem deixar passar batida a obra, inebriante, de Nelson Rodrigues, atentando para a morbidez que permeia as relações das suas personagens - o que não é muito diferente das relações que sangram hoje pelos noticiários da TV; pais matando filhas, ou contrário; irmão, cunhados, desconhecidos, todos acabando uns com os outros.

Note também a linguagem rica que Nelson utilizava para tratar do simples caso ‘a dama do lotação’, ou para falar de Sérgio, um cara que viu a noiva, tímida, defenestrando-se em plena lua de mel na sua frente, só porque a noivinha, puritana, não teve forças para encará-lo depois de uma disenteria causada por um pastelzinho. O nome do conto? ‘ O Pastelzinho’.

Desfechos abruptos de Nelson. Pessimista, o escritor não costumava dar final feliz de conto de fadas para as suas personagens – poderíamos até chamá-las de vítimas. Vítimas do cotidiano e da caneta de Nelson, convenhamos. Eu que não queria ser uma delas.

quinta-feira, 31 de março de 2011

São Paulo, terra de peculiaridades culturais

Em minhas andanças pela periferia de São Paulo, me deparei com um caso curioso: a união matrimonial de Lucimar Pereira e Rashed Adewaele. Adianto que não se trata de um casal comum. O casamento dura já oito anos e serviria de tema às discussões mais acaloradas. Ela, brasileira de São Paulo, evangélica e boleira. Ele, africano da Nigéria, ainda meio indeciso quanto à opção religiosa e, desde os 30, revendedor de acessórios africanos para o Candomblé aqui no Brasil. Ambos dividem o mesmo teto num dos prédios da Cohab em Itaquaquecetuba (SP) e, apesar das diferenças, compartilham a vida e um filho em comum: Gabriel Pereira Adewaele. O primogênito do casal não é filho único. Dois irmãos africanos moram à distância de um oceano com a primeira esposa do pai na cidade nigeriana de Lagos.

No Brasil, a história de amor começou à primeira vista. Saculejando dentro do ônibus, Rashed observou Lucimar à frente e viu mais que um corpo em movimento: a mulher atulhada de sacolas nas mãos carregava também encanto singular. Encasquetou de levantar ao som da campainha, ajudá-la com seus pertences e seguir para o desconhecido lar onde morava a paulistana. Conheceu a família e a resposta positiva de Lucimar sobre o pedido de namorá-la. Logo no primeiro ano, veio a notícia da gravidez e, junto ao fato, o motivo que faltava para viverem sob o mesmo teto.

Rashed continuou a rotina de viagens Brasil-África, África-Brasil para que não faltasse o pão à mesa da nova família. A profissão de vendedor de artigos para o Candomblé não é das mais comuns em solo brasileiro, mas extremamente lucrativa pela pouca concorrência de importados africanos. Sua opção de trabalho não se limita à revenda desse tipo de produto. “Quando estou no Brasil, vendo roupas e acessórios para o Candomblé, quando na África, levo bijouterias da 25 de Março que fazem muito sucesso entre as mulheres de lá”. Ele explica que os que saem de seu país de origem para outras terras, geralmente adotam a prática numa espécie de alternativa bem sucedida. “Aproveitamos a viagem para reabastecer o estoque e ganhar mais dinheiro”, confidencia o africano.

Acostumada às viagens de Rashed, Lucimar diz ter se acostumado à rotina do marido. “Por aqui, eu vou me virando. Cuido da casa, pago as contas, lavo, passo, cozinho pra mim e meu filho e vendo bolos sob encomenda”. Desde 1995 se converteu ao protestantismo e entregou sua vida a Cristo e à igreja evangélica Assembleia de Deus. No primeiro dia da decisão, o pastor orientou a jovem quanto às doutrinas: não cortar o cabelo, não pintar as unhas, não usar brincos, vestir saias ao invés de calças etc. Decidida, a evangélica resolveu acatar às ordens e passou a viver segundo a nova fé. Lucimar diz que sempre soube da profissão do marido. “Só aceitei porquê não é ilegal. Não é ‘santo’ mas pelo menos é honesto”, justifica.

O casal vive bem. No apartamento 23 do boco I à rua Osvaldo Cruz do Jardim Itapoã, costumes brasileiros e africanos se misturam no cotidiano da família. O prato tipicamente solicitado por Rashed à Lucimar é o inhame, na Nigéria chamado de “yam”. A raiz é servida com muita pimenta, exatamente como no país de origem e, segundo a cozinheira, faz o africano “lambuzar os dedos”, já que não perdeu o hábito nigeriano de comer com as mãos. “Rashed também aprecia nossa feijoada brasileira, só que não pode faltar a farinha de mandioca”, conta a brasileira (massa consistente é essencial para aqueles que dispensam o talher na hora da alimentação).

Lucimar já se acostumou aos hábitos do marido. A comida, a fala e as viagens à África não parecem construir uma barreira entre o casal. Quanto à profissão: “Pra mim é profana, ele não deveria contribuir com esse tipo de atividade, mas precisamos sobreviver de alguma forma”. Rashed bem que tentou trabalhos mais pacificadores. Durante dois anos, estudou enfermagem nos Estados Unidos e veio pronto para o mercado brasileiro. Não teve sucesso. A outra alternativa era vender cabelos “made in África”. Rashed se apressa: “Não teria o mesmo lucro. Vender para o Candomblé é certeza de dinheiro bom”. Entre uma conversa e outra, o casal trocava olhares de cumplicidade.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Relato de uma guerra em Canudos

As terras áridas do sertão nordestino raramente viam a chuva, e as secas cíclicas acentuavam os latifúndios improdutivos. Sobre os olhos do país, naqueles 1896, o sangue derramado no sertão. Pela retina de Euclides, a oportunidade de vencer a frieza no relato jornalístico. Foi Canudos uma guerra sem escrúpulos, matando e fazendo morrer as esperanças de um povo que seguia o seco castigado, queimado e rachado em terra e dor. Canudos só não esperava ver seus detalhes tão bem apanhados por alguém supostamente do lado de lá da trincheira.

Financiado pelo jornal O Estado de S. Paulo, o jornalista e apaixonado pela escrita, Euclides da Cunha, deu vida à morte dos sertanejos numa grande reportagem sobre o combate. Agarrados à revolução pelos direitos que lhes cabiam, os baianos de Canudos só desejavam o fim da fome, da miséria e do egoísmo de seus governantes para, talvez, dar lugar ao sonho de "sacar a água sem aquele espinho seco" como canta Marisa Monte.

Para a imprensa, era o fato da vez. A cidadela liderada por Antônio Conselheiro, figura carismática para os seus e retrato-perigoso nas páginas de outros jornais, ganhou naqueles dias os ares da comitiva republicana que se viu forçada a sair de seus aposentos para apaziguar os baderneiros "canudenses", dispostos a passar a faca nos cabeças reinantes da Bahia, segundo manchetava a imprensa da época.

Sobre os fatos, nada que uma guerra não possua: morte sob o fôlego do ades. Até 20 mil sertanejos esquartejados pelo apavoramento dos que, de longe, bem de longe, souberam do que sucedia nas terras secas de Canudos. A legitimação de um massacre foi unânime e cinco mil militantes também deram sua contribuição e suas vidas em defesa do governo. Fato histórico.

Os Sertões de Euclides foi um só.  Em tempo, espaço, fato e projeção, a obra jornalística raptou da literatura seu legado: reinventar o olhar sobre a vida (e morte) por meio da linguagem. E não por menos, lançou no jornalismo brasileiro as influências literárias em combate ao ponto a ponto do relato literal, que não “saca que o tal caminho é seco". Se alguma chuva pode molhar a enxada seca de que falou Marisa não sei, mas caneta e papel úmidos de intenções revolucionárias (em tempos de sequidão da linguagem jornalística) bastariam para resgatar aquela humanidade viva encontrada no texto de Euclides.

                                       

segunda-feira, 21 de março de 2011

Heróis Urbanos

Entro no ônibus e meus olhos se dirigem diretamente a um rapaz, por conta de seu distinto jeito. Não é todo dia que vejo peculiaridades na massa homogênea trabalhadora que se desloca sonolenta rumo ao trabalho. O nome do indivíduo eu descobri depois, quando a moça que o acompanhava pronunciou sonoramente: CAIO! Camisa social listrada arregaçada na altura dos cotovelos. Eram sete horas da manhã e ele estava pendurado no ônibus já maldizendo a vida comum para aquela senhora de cabelos loiros ainda desgrenhados do sono. Era a sua mãe.  Entusiasmado, um pouco bravo, um pouco risonho, Caio relatava:

- Fui ao médico e ele me falou que eu estava com estresse. Dezenove anos com estresse! Quis quebrar a cara dele.

-HAHAHA!- ecoou a risada da loira que o ouvia, fazendo despertar a metade dormente do ônibus – E se você tivesse com ela...

- Se eu estivesse casado com ela, pior ainda! Racharia a cara dela e a do médico. Mãe, a vida é dura, a vida é difícil. Meu patrão chega para mim e não quer nem saber o que faço. Quer apenas que eu dê um jeito nos meus funcionários, que eu os amanse e os faça trabalhar.

O próprio rapaz, Caio, não tinha cara de quem tinha vontade de trabalhar. Fiquei imaginando ele, camisa semiaberta mostrando aquele tufinho de pelos peitorais e a manga ainda arregaçada a mostrar a tatuagem feia, mascando um pedaço de palha. Uma mistura de Jeca Tatu com o astuto, autoritário (hahaha) e metódico Adam Smith. Viva as nações desgovernadas!

É incrível como coincidências acontecem, mesmo antes do meio-dia. No momento em que a cena acontecia no ônibus, eu tinha em mãos um livro sobre linguagem, literatura e comunicação, e estava lendo sobre a transmutação dos heróis dos romances no decorrer do tempo. Do herói grego que acreditava no contato com os deuses do Olimpo, para o herói pagão ou cristão - ou pagão e cristão e ao mesmo tempo-, e daí já um salto para o herói brasileiro, o índio e, finalmente, o herói contemporâneo, aquele que não precisa ser nenhuma celebridade para sobreviver – uma espécie de Fabiano de Graciliano Ramos.

Estava um herói na minha frente. Um trabalhador tatuado, desleixado em sua fala e trejeitos em geral e ao mesmo tempo com responsabilidades de chefe, numa incongruência e contradição típica dos heróis gregos das epopéias, de um Odisseu que batalhava e matava em terra e mares com a sua espada, e depois beijava docemente a donzela que o aguardava lamuriosa e cheia de amor para dar. Não era mais um simples operário do sistema que meus olhos vislumbravam. Era Caio de Carapicuíba com suas vestes sociais, imponentes desenhos marcados a doloridas agulhadas nos braços, dono do comportamento tempestuoso esperado de um jovem guerreiro de dezenove anos que luta contra o casamento, o chefe e o sono que o ataca às sete horas da manhã no ônibus lotado.

Contemporâneo herói urbano, bravo!





sexta-feira, 18 de março de 2011

A alma encantadora (João) do Rio

Imaginem vocês que bem antes do surgimento do Jornalismo Literário como terminação e estilo de um novo fazer jornalístico, proveniente do “New Journalism” popularizado nos Estados Unidos em meados dos anos 60, o Brasil já contava com seus representantes do gênero.  Um dos mais notáveis, Paulo Barreto (1881-1921), fez-se conhecido pelo pseudônimo João do Rio, “ A alma encantadora das ruas”, nome igual a uma de suas melhores obras. 


Jornalista entusiasmado, João do Rio prezava não só a informação, mas também a boa narrativa feita com vocabulário vasto e descrições minuciosas do ambiente e personagens de seus textos. Tais características, tipicamente pertencentes à esfera da literatura, deram tom à riqueza que pulsa dos escritos de João do Rio.

João se escorou nos ideais positivistas e progressistas para retratar a Cidade Maravilhosa tal como ela aparecia diante de seus olhos. Inspirado também por um certo dandismo à la Oscar Wilde, o forte de João do Rio era, sobretudo, descrever a elite que insurgia na antiga capital federal sem esquecer de mencionar – e frisar - os hábitos e aspectos morais que adormeciam sob as roupas pomposas dos elegantes.

Paulo Barreto passou por jornais como O Paiz, O Dia, Correio Mercantil, O Tagarela e O Coió, tendo se destacado principalmente na Gazeta de Notícias. Ele se destacou como um dos primeiros jornalistas famosos por retirar das ruas os melindres do cotidiano para espelhá-los em crônicas. Acabou-se a ‘tarimba’ de redação. Para João, não era em uma redação, enclausurado, que o escritor/jornalista conseguiria tecer um texto saboroso que retratasse o real.

Como diz o crítico Brito Broca: “a crônica deixava de se fazer entre quatro paredes de um gabinete tranquilo, para buscar diretamente na rua, na vida agitada da cidade, o seu interesse literário, jornalístico e humano.”


  • “Nada se teria feito na vida, se o homem não conseguisse medir o tempo, dividir o indivisível, andar para trás e para diante no que não tem começo, nem meio, nem fim. Contar o tempo é estimulante, a razão maior da vida. Não é só a certeza de ter caminhado e de ter passado, é a esperança de ir para diante. A divisão astronômica fez-se a fixação dessa aspiração, a matemática marcando palpitações e anhelos, temores e desejos. Vindo do incomensurável até o segundo – o homem teve a crença de que fez o seu Tempo e ficou com a única religião que não se desmorona: a religião da côrte do tempo, em todas as raças e em todos os calendários”.

Chronicas e frases de Godofredo de Alencar
João do Rio



“O jornalismo, especialmente no Brasil, é um fator bom ou mau para a arte literária?”, questionou João do Rio.


Embora não se autoproclamasse um jornalista literário, pois o termo nem mesmo existia, João do Rio parecia notar que tinha ímpeto para fazer um jornalismo, ao menos, diferente. Ele levantou um questionamento acerca da ligação entre o jornalismo e a literatura que ajuda a nortear estudos na área de comunicação em qualquer que seja a época, da contemporaneidade dele adiante.

quinta-feira, 17 de março de 2011

John Hersey, o revolucionário do jornalismo


Era 1945, ano de Segunda Guerra Mundial, e a população japonesa que habitava as províncias de Hiroshima e Nagasaki não esperava assistir àquele grande “clarão silencioso”.  De repente, o céu embranqueceu. De repente, a bomba atômica destruiu muitas estruturas de concreto e de vidas humanas.
John Hersey era um daqueles jornalistas de sua época incomodados com a linguagem objetiva que imperava nas redações. Como descrever os horrores bélicos com leads frios e estrutura tão objetiva? Diante do convite para cobrir a tragédia do pós-guerra, Hersey não se fez de rogado e mergulhou na rotina dos atingidos pelo reflexo nuclear.  
Hersey arriscou e trouxe à existência um jornalismo vigoroso e carregado de humanidade. O jornalista não sabia, mas a grande reportagem Hiroshima inaugurava uma nova forma de tratar a informação. Dali pra frente, ferramentas literárias da ficção andariam de mãos dadas com o estilo jornalístico, o que para ele, traduzia a melhor alternativa (a mais atraente) para lidar com o mundo real.
Hiroshima conta a luta dos personagens envolvidos na tragédia para voltar à normalidade depois da atrocidade. O jornalista se deteve nas particularidades das lutas e nos pequenos atos de sacrifício, que se tornaram essenciais para a sobrevivência dos japoneses. O livro é um antecedente crucial do Novo Jornalismo pela estrutura narrativa característica da ficção, nem mesmo as reações internas dos personagens escapavam das anotações de Hersey. A paisagem apocalíptica, desenhada na obra, conta com descrições precisas, monólogos internos e constantes mudanças de pontos de vista.
O “novo” de Hersey ganhou ares de revolução no jornalismo e a classificação de melhor reportagem do século XX pelo Departamento de Jornalismo da Universidade de Nova York, mesmo território que lançou as bombas contra o Japão.